É tudo muito bonito na teoria mas não é bem assim. A Miramax, outrora (no tempo dos irmãos Weinstein) uma produtora que arriscava em novos valores e em projectos ‘de autor’, começa a aparecer com regularidade nomeada para grandes prémios e a assemelhar-se aos grandes estudios no que diz respeito a investimentos para novos projectos. Outros dos baluartes para o cinema indie era o festival de Sundance.
Tomei conhecimento do festival numa visita ao video clube com o filme ‘Hurricane’ (não é aquele com Denzel Washington mas sim o realizado por Morgan J. Freeman), onde este tinha ganho o prémio da público. O filme convenceu-me e comecei a prestar atenção ao que saía deste festival ‘inventado’ por Robert Redford, antes de se tornar um supermercado de novas tendências.
É verdade que este festival que veio do frio nos deu a conhecer realizadores altamente estimulantes (Vincent Gallo, Darren Aronofsky, Richard Kelly) e filmes que irão marcar o cinema das últimas décadas (‘Donnie Darko’, ‘Memento’,’Primer’, ‘Narc’) mas o espírito independente tem-se vindo a perder.
Os três exemplos que falo de seguida todos abordam o mesmo tema, de maneira diferentes mas sente-se o espírito rebelde e revoltado do cinema independente em cada fotograma. O tema? O Amor.
Começando por ‘London’; há caras conhecidas de blockbusters (Jessica Biel, Chris Evans e Jason Statham) mas a cedência comercial fica-se por aqui. Syd (Evans), a recuperar do fim de uma relação, acaba por encontrar no seu fornecedor de droga, Bateman(Statham) algo mais que interesse negocial. Nessa noite London(Biel), a ex de Syd dá uma festa de despedida no seu apartamento e mesmo sem ser convidado, Syd e Bateman decidem aparecer.
A partir do momento que chegamos a festa , o espaço parece encolher à medida que o desespero de Syd aumenta para conseguir voltar a falar com London depois do fim abrupto da sua relação. Esta diminuição de espaço é reflectida no filme pois a acção a partir de certo momento passa a limitar-se ao que decorre na casa de banho. Os convidados que entram pelos mais diversos motivos, as conversas de ocasião que facilmente resvalam para algo mais profundo, as confissões\confusões de Syd e Bateman, tudo isto flui a bom ritmo entre cortado com flashbacks da vida de casal, poucos meses antes. E se os flashbacks nos mostram um relação intempestiva, os diálogos de Syd mostram-no como uma pessoa perturbada e extremamente emocional mas cujo o verdadeiro grande problema é continuar apaixonado.
Em ‘Cashback’, uma curta vencedora é estendida e promovida a motion picture. Tal operação é concluída com alguns precalços mas o saldo é positivo podendo-se chegar a considerar um sucesso. Após uma separação dolorosa, Ben começa a sofrer de insónias e após passar noites a fio acordado decide que pode fazer algo mais util com este tempo e começa a trabalhar no turno da noite num supermercado. É aqui que Ben descobre que é capaz de parar o tempo e capturar momentos de rara beleza em que ele é o único ser animado neste mundo.
Ainda que há primeira vista possam ver aqui um candidato a figurar em Heroes, devido a este estranho poder, importa perceber a metáfora desta paragem e da separação destes dois mundos. Prestando atenção a todo o ‘crescimento’ de Ben e ao momento em que este tenta trazer Sharon para o seu mundo, esta dualidade de universos é quase palpável mas ao mesmo tempo surreal.
O facto de ter tido como origem um curta-metragem leva a que certos segmentos do filme pareçam deslocados ou até desnecessários mas analisado como um todo temos um filme, ainda que por vezes demasiado marcados por traços de pretensiosismo desnecessário, de grande emotividade.
Para o fim o melhor, ‘Once’.No papel não podia ser um “boy-meets-girl” mais banal (até no genérico os protagonistas são identificados como guy e girl) mas olhando para dentro do filme encontramos muita mais. Ele repara aspiradores e nos tempos que livres vagueia com a sua guitarra pelas ruas de Dublin dando (boa) música a quem passa e juntando uns euros, ela emigrou desde a república checa á procura de oportunidades juntamente com a mãe e o filho, deixando para trás o marido. Conhecem-se na rua e cria-se uma ligação começando com observação, passando por um favor e consolidando-se com o gosto comum pela música tendo o ponto alto num momento musical de rara beleza (na loja de instrumentos).
A música está presente em todo o filme mas desenganem-se os que esperam um musical aborrecido repleto de números minimalistas – afinal de contas, maior parte do tempo temos ‘ele’ com uma guitarra sozinho do ecrã. O que podemos assistir é ao encontro de dois seres perdidos que vêm um no outro o que lhes faltava para completar o seu mundo mostrado com uma sensibilidade extrema.
A determinda altura ele se ela ama o marido. A resposta vem em checo e a menos que o espectador domine a lingua, estamos perante momento ao nivel da despedida de Scarlet Johanson a Bill Murray em ‘Lost in Translation’. A nossa percepção é a mesma, com a diferença de agora termos o protagonista tambem afectado pela confusão da resposta (em ‘Lost...’ Murray teve a sorte(?) de ouvir a resposta).
Mais que a discussão acerca do tempo de recuperação após a ruptura de um relação em ‘London’, o mundo parado em ‘Cashback’ ou as sessões de estúdio de ‘Once’ interessa ver como um sentimento tão único e pessoal é mostrado de forma tão sincera e humana. Afinal de contas isto também é ser indie: ter o coração ao pé da boca e não ter problemas em assumi-lo.
2 comments:
Jovem,tavas realmente inspirado. Deve ser do filme. O Once é realmente mesmo muito bom. Uma bela e comovente história de amor sem apelar à lamechice a que uma pessoa já vem habituada. O mesmo se aplica à banda sonora. Realmente....5 estrelas. Fossem todos assim...ou como o Moulin Rouge! Ehehe
Abriste-me o apetite para ver esses filmes se conseguirem um dia chegar a uma sala de cinema perto de mim ou ao clube de vídeo cá da zona!Estava a ler o London e a lembrar-me do Anniversary Party (um casamento atribulado, auf portugiesisch) devido ao confinamento da acção a um espaço físico e a tensão emocional a aumentar.
Once penso saiu cá, o cashback...é que não sabia nada. um abraço e obrigada pelas referências fresquinhas.
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