O desaparecimento recente de Jack Valenti, presidente da MPAA (MotionPictures Association of America, responsável pela classificação dos filmes nos EUA) fez-me lembrar um documentário lançado recentemente que pretendia clarificar a função desta associaçao com um funcionamento quase maçónico. Refiro-me a "This Film is Not Yet Rated".
Kirby Dick lidera uma missão de tentar descobrir quem são os elementos que constituem esta associção "secreta" que supostamente deveriam representar o americano comum, bem como tentar perceber quais o parametros de classificação dos filmes. Seria o sexo mais penalizado que o sangue? Aceitaria-se mais facilmente grandes doses de violência do que demonstrações de afecto entre seres do mesmo sexo? Rapidamente se conclui que as regras não são claras nem sequer coerentes. Pelo meio surgem declarações de alguns dos realizadores mais 'sacrificados' por este método de classificação como é o caso dos criadores de South Park, Trey Parker e Matt Stone devido a Team America, Kevin Smith, Limberly Peirce ou Atom Egoyan.
Em toda esta investigação até há espaço para uma dupla de detectives nada convencional que, com as devidas distâncias, não deixa de fazer lembrar a personagem de Frances McDormand em 'Fargo'.
Ainda relacionado com o meio cinematográfico saiu tambem "Going to Pieces: The Rise and Fall of Slasher Film". O nome é bem claro, uma visão sobre os últimos anos do cinema de terror, mais concretamente os slashers (embora haja espaço para outros estilos dentro deste género de cinema), sub- género que conheceu a sua explosão nos anos 80. Obras como "Halloween", "Friday 13th" ou "Nightmare on Elm Street" ditaram as regras e não lhes faltaram fiéis seguidores com variáveis níveis de qualidade. O filão foi explorado até a exaustão (prova disso são as intermináveis sequelas dos 3 títulos referidos) e neste documentário presenciamos a queda do género, a perda de interesse por parte do público e a ausência de receitas. Situação que viria a ser invertida por "Scream" que joga com as estritas regras do slasher-movie, subverte-as a seu favor e consegue recuperar o interesse por estas emoções.
Testemunhos de John Carpenter, Sean S. Cunningham e Wes Craven são extreamente valiosos para conseguir perceber e contextualizar a necessidade do aparecimento deste género. E não faltam referências para os 'novos mestres' como Rob Zombie, Eli Roth ou James Wan. Estarão ao nível das expectativas? Os próximos anos servirão para dissipar essa dúvida.
Dois documentários interessantes que me chegaram às mãos numa altura em que estes deixaram de estar confinados a horários sombrios no segundo canal da estação pública de televisão.
Michael Moore apareceu com a sua visão inflamada da realidade norte americana numa fusão de realidade e 'ficção' dando ao documentário mais ar de 'cinema' e não de algo que pudéssemos estar a ver no Discovery Channel. Este ano tivemos a preocupação ambiental do século transmitida por Al Gore em "An Inconvinient Truth" e seguimos a vida no Ártico em "March of the Penguins". Ainda haverá espaço para conspirações corporativas em "Who Killed the Electric Car" e dúvidas religiosas em "Deliver Us From Evil".
Os documentários encontraram o seu espaço. Não só passaram a estrear comercialmente nos cinemas como têm eventos próprios (DocLisboa). Podem ter os diversos fins (derrubar um presidente, alertar para questões ambientais, relatar épocas culturais) mas em última instância o seu objectivo é informar. E o facto de eles existirem deve-se ao facto de existir quem queira ser informado.
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